Você entra em uma loja especializada em vinhos ou senta-se à mesa de um restaurante bacana e se sente desconfortavelmente vigiado pelos olhos e ouvidos atentos do maître ou sommelier na hora de apontar o vinho que deseja...
Mesmo já tendo se aventurado em seus goles de vinhos de diferentes faixas de preço, muitos balançam ao serem postos à prova diante da tarefa de achar a garrafa que mais se adequa à ocasião ou melhor harmoniza com os pratos que irá escolher.
Se você tem tais preocupações, saiba que sua relação com vinhos já não é de um simples iniciante desinteressado, você já se encontra em um patamar acima.
De qualquer forma, é curioso notar que a mesma pessoa, diante de um menu recheado de pratos com nomes difíceis, não hesita em indagar ao maître sobre os ingredientes e forma de preparo das iguarias; dadas as explicações, não há qualquer constrangimento em decidir sobre um dos pratos listados.
Mas por que com o vinho tem de ser diferente? Por que às vezes fica a impressão que este é um universo inacessível, restrito a poucos e bons: os críticos e profissionais de vinho?
Definitivamente, desmitificar parece ser a palavra de ordem. Muitas empresas que buscam ampliar a participação do vinho no segmento de bebidas alcoólicas sustentam que esse é um dos pontos centrais a ser atacado.
O consumidor não trocará sua garrafa de cerveja por uma de vinho enquanto não se sentir à vontade para escolher e opinar sobre um produto cujos jargões criam uma aura em torno do seu consumo, dando vida a histórias e mitos que parecem não lhe pertencer.
Ao longo das últimas décadas, com o crescimento do consumo de vinhos finos no Brasil, a bebida entrou na moda. E foram criados círculos mais ou menos secretos em torno do objeto de desejo, com um vocabulário específico se configurando.
Todo esse movimento gerou uma série de benefícios, como a formação de núcleos de educação e treinamento para profissionais que vivem o dia a dia do vinho, sejam eles ligados aos processos produtivos, administrativos, de distribuição ou de vendas.
Graças a esses núcleos de formação, o consumidor hoje pode entrar em lojas especializadas e em alguns supermercados, e logo ter auxílio na escolha do melhor produto, de acordo com o seu perfil ou ocasião em que pretende abrir a garrafa.
Mas o movimento de formação não seguiu também na direção do consumidor final, ao menos não com a mesma ênfase. As possibilidades de escolhas se multiplicaram em velocidade tal que nenhum consumidor poderia acompanhar a diversidade de rótulos e safras disponíveis, nem o volume de informações que saem na mídia sobre esse mar de vinhos.
Mesmo as publicações destinadas ao apreciador leigo muitas vezes impõem barreiras ao seu leitor, fazendo uso de termos técnicos e jargões.
A cada bolso um gosto, e não há qualquer demérito nisso. Ao tentar criar figuras de linguagem em torno das descrições mais objetivas, muitas vezes as metáforas utilizadas são tão próprias da memória e do universo pelo qual transita o crítico que o consumidor comum se vê afastado da possibilidade de fazer parte daquela experiência.
Você agora deve estar se perguntando: bom, mas e aí? O que eu faço diante da carta de vinhos ou da prateleira de bebidas em lojas e supermercados? O que eu faço com o sommelier ou maître arrogante do início do texto?
A dica é: não recue, não se intimide. Pergunte. Procure auxílio e pergunte sempre ao sommelier ou atendente de vinhos. Não tema fazer perguntas sem sentido, pois todas elas têm sentido, ao menos para você que quer aprender.
Caso note um ar arrogante, abaixe ainda mais o nível das perguntas, e questione sobre coisas básicas e os termos que ele está usando para explicar determinado vinho.
Se for um bom profissional, ele encontrará a melhor forma de conduzir a explicação para que você entenda e opte com consciência. Se for um mal profissional, a arrogância saltará aos olhos, e você saberá que não adianta insistir.
Nesse caso, escolha sem seu auxilio, e busque prazer na aventura. Afinal a degustação é uma reação ao prazer causado pelo vinho, e atenção, experiência e memória são fundamentais para que o prazer do gole ocorra.
Não deixe que atrapalhem seu momento. Em tempo: tudo isso só é válido se você for um consumidor moderado, que consegue se manter atento e sóbrio durante suas degustações e conversas sobre o tema. Caso contrário, não gaste dinheiro com boa bebida!
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